Então, fui lá fazer minha cirurgia. Achei que ia ser massa, se é que uma cirurgia pode ser massa, mas não foi. Explico: há uns 6 meses eu fiz uma endoscopia, e foi massa. Aplicaram a anestesia, mas eu não apaguei completamente, fiquei consciente o tempo todo, mas a sensação foi muito boa, parecia que eu estava flutuando, andando nas nuvens, curti o maior barato. Pensei, bobinha que sou, que dessa vez, por ser uma anestesia geral, eu ia curtir um barato muito maior, mas nem rolou.
Minha cirurgia estava marcada para as 14h30, mas o médico mandou eu me internar à 6h30, só pra eu sentir mais fome e mais sede, claro. O setor de internação estava pior do que a fila do INSS, lotado, e parecia que todas as grávidas de Brasília resolveram parir no mesmo dia. Assino mil papéis, autorizando me internarem, me entubarem, me anestesiarem, arrancarem meus órgãos e vendê-los no mercado negro e finalmente subo pro quarto. Como estava muito cedo ainda e eu não tinha nada melhor pra fazer, achei que seria bom dormir um pouco. Só achei mesmo né, porque você tem ideia de como é difícil conseguir dormir em um hospital? Pois é, entra enfermeira, moça da limpeza, copeira, arrumadeira, vendedora de pano de prato... Daí que das 6 horas que eu tinha pra dormir, eu só consegui tirar um breve cochilo de 2 horas.
Mas nem tudo é ruim. Eis que chega o padioleiro pra me levar para o centro cirúrgico, avalia atentamente minha ficha e comenta chateado: "Jovem, anotaram sua idade errada aqui. Colocaram 29 anos!" "Mas é isso mesmo!", eu respondo. E ele: "Poxa, mas eu tava achando que você tinha uns 16!" Valeu aí, seu padioleiro, por tirar quase metade da minha idade das minhas costas. Ganhei meu dia!
Já na sala de cirurgia, os médicos conversam comigo, me explicam algumas coisas, me colocam no soro e minhas pernas começam a tremer muito, não sei se de frio ou de medo, mas acho que era de medo mesmo. O anestesista me diz que vai me dar um remédio pra eu ficar mais relaxada e que logo em seguida eu vou dormir e acordar já na sala de recuparação. Pergunto depois de quanto tempo eu vou acordar e ele diz "mais ou menos uma hora". E aí puff, eu apaguei legal e acordei 4, eu disse quatro, horas depois gritando de dor na sala de recuperação. Gritando de dor não, gritando "a dor", porque das cerca das 125 mil palavras que eu conheço em 6 idiomas, parecia que a única que fazia parte do meu vocabulário naquele momento era "dor". Gente, era muita dor, não me lembro de ter sentido tanta dor assim em toda essa minha vida. E além da dor, tinha um incômodo terrível, que, segundo a enfermeira me explicou, era causado por um gás que injetam no abdômen para auxiliar na cirurgia. Aplicam um remédio, eu melhoro e sou levada de volta ao quarto. Agora eu vou dormir. Hahaha, ledo engano. Eu tenho certeza que o soro que entra pela sua veia vai direto para a sua bexiga. Logo, eu passei a noite toda indo ao banheiro (ou o banheiro indo até mim, tanto faz) e dormi muito pouco, mas dormi. E no pouco tempo que embalei num soninho eu até sonhei, com quem não devia, mas sonhei. Tanta gente interessante pra eu sonhar, e eu vou sonhar logo com essa criatura. Mas enfim...
E cá estou eu, com o bucho todo costurado, mais ciente da palavra paciente, do que é ficar mais faminta que Seu Boneco e Chaves juntos e de como o Michael Jackson se sentia depois do Propofol. Era por isso que ele queria continuar dormindo, acordar de uma anestesia geral é ruim demais. Deveria estar repousando ou fazendo exercícios respiratórios, mas na dúvida, estou blogando.
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